5  Mamíferos terrestres de médio e grande porte e aves terrícolas cinegéticas


Arlindo Gomes Filho1, Elildo Alves Ribeiro de Carvalho Junior2, Gerson Buss3, Marcelo Lima Reis4, Marcos de Sousa Fialho1, Rafael Suertegaray Rossato3, Ricardo Sampaio3, Richard Hatakeyama5 & Thiago Orsi Laranjeiras6

  1. Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres – CEMAVE
    Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio
    BR-230 Km 10
    Floresta Nacional da Restinga de Cabedelo
    58108-012 Cabedelo, PB

  2. Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros – CENAP
    Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio
    Estrada Municipal Hisaichi Takebayashi, 8600 - Bairro da Usina
    12952-011 Atibaia, SP

  3. Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros – CPB
    Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio
    BR-230 Km 10
    Floresta Nacional da Restinga de Cabedelo
    58108-012 Cabedelo, PB

  4. Coordenação de Monitoramento da Biodiversidade - COMOB
    Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio
    Complexo Administrativo EQSW 103/104 s/n
    70670-350 Brasília, DF

  5. Núcleo de Gestão Integrada - NGI ICMBio Tefé
    Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio
    Estr. do Aeroporto, 725 - Centro
    69550-101 Tefé, AM

  6. Parque Nacional do Viruá
    Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio
    69360-000 Caracaraí, RR


Mamíferos terrestres de médio e grande porte e aves terrícolas cinegéticas são animais sensíveis à intensa pressão de caça, redução e fragmentação de habitat, e por isso são considerados bons indicadores de impactos de origem antrópica. A defaunação das florestas acarreta a chamada “síndrome da floresta vazia”, a ausência de muitas espécies de animais causada pela forte pressão humana e seus efeitos ([1]).

Populações de grandes herbívoros, por exemplo, apesar de promoverem e regularem a diversidade de plantas e a ciclagem de nutrientes, na ausência de predadores podem crescer de forma descontrolada e gerar uma paisagem de intensa herbivoria, com aumento da supressão vegetal, da predação de sementes e da mortalidade de plântulas, o que reduz a taxa de regeneração da vegetação ([2]).

A redução das populações animais afeta diretamente a biodiversidade e impacta negativamente a própria estrutura e sobrevivência das florestas, em razão da perda de polinizadores, dispersores de sementes e outros processos ecológicos essenciais. O desequilíbrio na diversidade de espécies em direção a ambientes mais simples, além da redução da biodiversidade em si, pode também contribuir para surtos de doenças e até mesmo a ocorrência de futuras pandemias ([3]). Nesse contexto, o monitoramento desses dois grupos animais em programas como o Monitora é de fundamental importância para a saúde do meio ambiente e das pessoas.

Nesse capítulo apresentamos alguns resultados gerais do monitoramento de mamíferos terrestres de médio e grande porte e aves terrícolas cinegéticas, sistematizados até o momento pelo Programa. A taxonomia utilizada foi a mesma adotada no processo de avaliação do estado de conservação das espécies da fauna brasileira ([4]).


5.1 Implementação


De 2014 a 2022 o protocolo básico de amostragem de mamíferos e aves (censo diurno em transecção linear) foi aplicado de forma integral ou parcial em 53 UCs federais, totalizando 138 UAs (transecções lineares) em operação, distribuídas nos biomas Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica.
O esforço de amostragem nos nove anos considerados neste relatório correspondeu a 5.356 dias de campo (transecção/dia) e 25.602,55 km percorridos (Figura 5.1), resultando em 22.985 registros de mamíferos de médio e grande porte e em 12.995 de aves terrestres cinegéticas. No total, foram identificadas 132 espécies espécies e 60 gêneros de mamíferos e 31 esppécies e 13 gêneros de aves ((Figura 5.2), Apêndices C e D), com 35 táxons ameaçados de extinção: 29 de mamíferos e 6 de aves, respectivamente.

Das UCs amostradas, 34 (67%) já estão consolidadas, com pelo menos três unidades amostrais (transecções lineares) em operação. Seis UCs (12%) retomaram as amostragens em 2022, sete UCs (13%) estão inativas (há mais de dois anos consecutivos sem amostragem) e duas UCs (4%) não coletaram dados em 2022. O esforço por UC e por bioma (Mata Atlântica, Cerrado e Amazônia) é apresentado na (Figura 5.3).

Figura 5.1: Esforço por ano (linha marrom) e acumulado (linha verde) em quilômetros percorridos nas unidades de conservação integrantes do Programa Monitora de 2014 a 2022.


Figura 5.2: Táxons registrados acumulados (linha) e número de unidades de conservação (barras verticais) com protocolo básico de mamíferos e aves executado por ano, de 2014 a 2022.


Mais de 95% do esforço de amostragem ocorreu no bioma Amazônico. Isso se deve tanto ao maior número de unidades de conservação integrando o Programa Monitora nesse bioma, quanto ao esforço médio empregado por cada unidade de conservação (Figura 5.3). As unidades no Cerrado e na Mata Atlântica são menores e nem sempre comportam a rede recomendada de transecções: três estações amostrais de cinco quilômetros cada. Ademais, custear as atividades de campo nesses biomas geralmente é mais difícil, dada a maior disponibilidade de financiamento internacional para programas de monitoramento na Amazônia.

Figura 5.3: Esforço em quilômetros percorridos por unidade de conservação por bioma por ano, de 2014 a 2022.


5.2 Resultados


5.2.1 Visão geral


A maioria dos registros (56%) do protocolo básico de monitoramento de mamíferos e aves correspondeu a primatas e roedores (Figura 5.4). Esse resultado se deve, em parte, ao fato de o método ser mais eficiente na detecção desses grupos. Espécies noturnas e esquivas, como a maior parte dos carnívoros, são pouco registradas.

Figura 5.4: Representatividade das principais ordens de mamíferos amostradas no Programa Monitora, durante o período de 2014 a 2022. As barras em verde escuro representam o número de espécies registradas na ordem e as barras em verde claro o número de registros.


Dentre os mamíferos, os primatas destacaram-se como o grupo preponderante em número de registros e, exceto para o gênero Callibella, que não ocorre em nenhuma UC do Programa, todos os demais gêneros de primatas com ocorrência no Brasil foram registrados. Setenta espécies foram detectadas, o que corresponde a 84,7% dos primatas brasileiros. Dessas, 18 espécies são consideradas ameaçadas de extinção e duas apresentam deficiência de dados (DD) para avaliação.

Com relação às aves, 31 espécies de 13 gêneros foram registradas (Apêndice D). Durante as amostragens busca-se a identificação dos indivíduos observados no nível específico. Contudo, em algumas unidades de conservação duas, três ou mais espécies muito semelhantes, de um mesmo gênero, ocorrem em simpatria. Nessas situações, por segurança, esses registros são validados taxonomicamente em nível de gênero. Como exemplos podemos citar Nothura (codornas), Penelope (jacus), Tinamus (macucos) e Crypturellus (inhambus), todos gêneros com um ou mais táxons ameaçados de extinção (Apêndice D), conforme a Portaria MMA nº 148/22.

A maioria dos registros de aves distribui-se quase que igualmente entre Galliformes e Tinamídeos. Esse resultado se deve ao fato de o método ser eficiente na detecção desses grupos e em razão dos Gruiformes (jacamins) ocorrerem apenas no bioma Amazônico, nunca com mais de uma espécie por localidade, enquanto os Cariamiformes, com uma única espécie (seriema – Cariama cristata), são típicos de ambientes abertos e praticamente não foram avistados (Figura 5.4).

A variação nas proporções de registros no Cerrado e na Mata Atlântica ao longo dos nove anos de amostragem deve-se ao ainda pequeno número de unidades de conservação desses biomas integrando o Programa Monitora, à inconstância nas amostragens e ao pequeno esforço amostral, seja por unidade de conservação, seja por bioma (Figura 5.4).


5.2.2 Abundância relativa de mamíferos e aves por biomas


Em termos de abundância total de mamíferos e aves, o bioma Amazônico se destaca por apresentar taxas de avistamento mais altas (9,33 e 5,27 avistamentos/10 km, respectivamente), com grande variação tanto para mamíferos (1,76 a 20,12) quanto para aves (2,60 a 10,05). No Cerrado as taxas de avistamento variaram de 1,34 a 9,83 e 0,97 a 8,10 para mamíferos e aves, respectivamente (taxas médias de 4,07 e 3,26). Já na Mata atlântica os resultados variaram de 0,63 a 7,50 mamíferos e de 0,63 a 3,32 aves avistadas a cada 10 km, com valores médios de 3,17 e 1,26 (Figura 5.5). Observamos que não foram aplicados testes formais para avaliar a existência de diferenças estatisticamente significativas nas comparações realizadas, sendo apresentada aqui apenas uma análise exploratória e descritiva, com uma interpretação baseada nos valores médios e na inspeção visual dos resultados gerados.

Figura 5.5: Taxa de avistamento média de aves e mamíferos por bioma para o período de 2014 a 2022.


5.2.3 Taxa de encontro de mamíferos e aves ao longo do tempo - geral e por bioma - 2014 a 2022


Considerando a variação da abundância relativa ao longo do tempo, na Amazônia os primeiros anos apresentam uma maior dispersão dos resultados, explicada pelo número proporcionalmente reduzido de UCs participantes e consequente menor esforço amostral na fase inicial do Programa, além de um leve decréscimo nas abundâncias em 2021 e 2022 (Figura 5.6). Para a Mata Atlântica os resultados são irregulares devido à descontinuidade de amostragem e à grande variação no esforço entre os anos. Já para o Cerrado, o padrão observado se justifica pelo fato das duas UCs com dados coletados em 2022, o PARNA da Serra da Bodoquena e a ESEC de Pirapitinga, serem distintas das demais, com matriz florestal e, consequentemente, com maior taxa de avistamento.

Figura 5.6: Variação anual na taxa de avistamento média de mamíferos e aves de 2014 a 2022 (geral e por bioma). As linhas horizontais representam a taxa de avistamento média para cada grupo considerando todo o período amostral.


5.2.4 Abundância de mamíferos e aves nas unidades de conservação


Dentre as UCs com maiores taxas de avistamento totais para mamíferos destacam-se a REBIO do Uatumã, a RESEX Verde para Sempre e a ESEC da Terra do Meio (Figura 5.7). Essas três UCs também estão entre as quatro com maiores taxas totais de avistamento de aves (Figura 5.8). Contudo, a posição da RESEX Verde para Sempre deve ser considerada com cautela, visto que representa um único ano de amostragem (2022).

Figura 5.7: Taxa média de avistamento de mamíferos por unidade de conservação de 2014 a 2022.
Figura 5.8: Taxa média de avistamento de aves por unidade de conservação de 2014 a 2022.


5.2.4.0.0.1 Variação espacial na taxa de encontro média - mamíferos e aves conjuntamente


O tamanho das unidades de conservação do Programa Monitora varia muito entre biomas. No Cerrado e na Mata Atlântica as unidades de conservação são relativamente pequenas, com algumas dezenas de milhares de hectares, enquanto na Amazônia podem ultrapassar um milhão de hectares. Considerando-se que nas unidades do Cerrado e Mata Atlântica a abundância de mamíferos e de aves, expressas pelas taxas de avistamento médias, são inferiores (Figura 5.7 e Figura 5.8), é natural se considerar que essas populações apresentem, em geral, uma maior vulnerabilidade demográfica comparada àquela das populações amazônicas. A distribuição espacial da taxa de avistamento média geral (considerando-se conjuntamente mamíferos e aves) é apresentada na Figura 5.9. Dentre as unidades de conservação da Amazônia aquelas localizadas entre os rios Tapajós e Xingu apresentam as maiores abundâncias, à exceção da REBIO do Uatumã, localizada ao norte do Rio Amazonas e que também apresenta uma alta taxa média geral de avistamento (Figura 5.9).

Figura 5.9: Distribuição espacial das taxas médias de avistamento de mamíferos e aves (taxa geral, considerando conjuntamente os dois grupos) registradas nas unidades de conservação do Programa Monitora de 2014 a 2022.


5.2.5 Considerações sobre algumas espécie ameaçadas


Do conjunto de táxons da ordem Carnivora deste protocolo, 12 espécies ameaçadas já foram registradas ou têm sua ocorrência esperada nas 53 unidades de conservação analisadas: Atelocynus microtis, Chrysocyon brachyurus, Lycalopex vetulus, Speothos venaticus, Herpailurus yagouaroundi, Leopardus colocolo, L. guttulus, Leopardus tigrinus (e L. guttulus), L. wiedii, Panthera onca e Pteronura brasiliensis. Apenas uma espécie de mamífero carnívoro ameaçada, Leopardus geoffroyi (L. munoai), não tem ocorrência esperada nas unidades amostradas. Desses táxons elencados, apenas Lycalopex vetulus e Leopardus colocolo não foram registrados no Programa Monitora.

Das 13 espécies ameaçadas das ordens Cetartiodactyla, Perissodactyla, Cingulata e Pilosa com ocorrência esperada nas 53 unidades de conservação analisadas, nove foram registradas: Blastocerus dichotomus, Mazama nana, Ozotocerus bezoarticus, Tayassu pecari, Priodontes maximus, Tolypeutes tricinctus, Tapirus terrestris, Bradypus torquatus e Myrmecophaga tridactyla. Não houve registros para quatro espécies: Blastocerus dichotomus, Mazama nana, Tolypeutes tricinctus, Bradipus torquatus e Myrmecophaga tridactyla.

Para a ordem Rodentia, as espécies ameaçadas das famílias Caviidae, Ctenomyidae e Erethizontidae não são esperadas para as unidades amostradas. Já as famílias Cricetidae e Echimyidae, apesar de terem ocorrência provável nas unidades, em geral são de porte muito pequeno e de difícil identificação específica.

Em relação a ordem Primates, 16 espécies ameaçadas já foram registradas: Alouatta belzebul, Alouatta discolor, Alouatta guariba clamitans, Ateles belzebuth, Ateles chamek, Ateles marginatus, Brachyteles arachnoides, Lagothrix lagotricha cana, Lagothrix lagotricha poeppigii, Callithrix aurita, Leontopithecus chrysomelas, Mico rondoni, Cebus kaapori, Saguinus niger, Sapajus cay e Sapajus xanthosternos.

Do conjunto de aves alvo deste protocolo, 14 espécies ameaçadas já foram registradas ou têm sua ocorrência esperada nas 53 unidades de conservação analisadas: Nothura minor, Taoniscus nanus, Crypturellus zabele, Tinamus tao, Aburria jacutinga e A. cujubi, Penelope jacucaca e P. pileata, Crax blumenbachii e C. globulosa, Psophia obscura, P. interjecta, P. viridis e P. dextralis, mais duas subespécies, Penelope s. alagoensis e Crax f. pinima.

Do conjunto de aves alvo deste protocolo, 14 espécies ameaçadas têm sua ocorrência esperada nas 53 unidades de conservação analisadas: Nothura minor, Taoniscus nanus, Crypturellus zabele, Tinamus tao, Aburria jacutinga e A. cujubi, Penelope jacucaca e P. pileata, Crax blumenbachii e C. globulosa, Psophia obscura, P. interjecta, P. viridis e P. dextralis, mais duas subespécies, no caso Penelope s. alagoensis e Crax f. pinima.

Desses táxons elencados já foram registrados pelo Programa Monitora Aburria cujubi, Crax globulosa e as quatro espécies ameaçadas de Psophia, além da subespécie ameaçada de Penelope. Ressaltamos que Tinamus tao, Penelope pileata, P. jacucaca e Nothura minor foram ou poderiam ter sido registradas em campo. Porém, como ocorrem em simpatria com espécies semelhantes, os registros para esses grupos foram validados em nível de gênero. Na Amazônia, avistamentos de Tinamus tao (VU), azulona, foram reportados para praticamente todas as UCs para as quais a espécie era esperada, mas por estas áreas normalmente apresentarem outras espécies de Tinamus, seus registros foram agrupados para o gênero.

Três unidades de conservação registraram Crax globulosa (EN), o chamado mutum-de-fava. Mas considerando a raridade desta espécie, a falta de registros prévios em localidades próximas e o fato dos ambientes onde ocorreram as visualizações não serem aqueles considerados típicos para a espécie (floresta de várzea), esses dados estão sendo considerados com cautela. Já Crax f. pinima (CR), o mutum-de-penacho, que seguramente ocorre na REBIO do Gurupi, não foi observado em nenhum momento.

Taoniscus nanus (EN), conhecida por codorna-carapé, uma espécie monotípica e exclusiva deste bioma, não foi registrada.

No extremo norte da Mata Atlântica, na REBIO Guaribas, foram obtidos registros para Penelope s. alagoensis (CR), uma subespécie de jacupemba. Porém, infelizmente, as amostragens nessa UC foram interrompidas. Ainda neste bioma, eventuais registros de Crypturellus zabele (VU), zabelê, podem ter sido atribuídos a Crypturellus sp. Importante destacar a ausência de registros de A. jacutinga, que seria esperada para unidades de conservação da Mata Atlântica dada sua distribuição geográfica original.


5.2.5.1 Abundância para algumas espécies ameaçadas de mamíferos e aves


Primatas Atelídeos

O macaco-aranha-da-testa-branca (Ateles marginatus) encontra-se ameaçado de extinção na categoria “Em perigo (EN)” ([5]). Essa espécie ocorre na região do arco do desmatamento, interflúvio Tapajós-Xingu, e no período 2014–2022 foram registrados 110 avistamentos desse táxon em seis unidades de conservação do Programa Monitora: ESEC da Terra do Meio, FLONA do Tapajós, PARNA da Serra do Pardo, RESEX Renascer, RESEX Riozinho do Anfrísio e RESESX Verde para Sempre.

O macaco-aranha-preto (Ateles chamek) está ameaçado de extinção na categoria “Vulnerável (VU)” ([5]), ocorrendo na região da Amazônia ocidental. A espécie foi registrada em 15 unidades de conservação, com 638 avistamentos no período 2014-2022. Além de estar presente em maior número de unidades de conservação do Programa, Ateles chamek apresentou uma maior taxa média de avistamentos por ano do que o Ateles marginatus (Figura 5.10). A taxa de avistamento anual dessa espécie no Programa Monitora variou de 0,6 a 1,3 avistamentos/10 km, corroborando estudos com taxas de avistamento de Ateles chamek em diferentes áreas, que variam de 0,2 avistamentos/10km ([6]) a 2,2 avistamentos/10 km ([7]). As maiores densidades populacionais são correlacionadas com a heterogeneidade de habitat e com a ausência ou baixa intensidade de caça ([8], [9]).


Figura 5.10: Taxas médias de avistamento estimadas por ano para duas espécies de primatas atelídeos ameaçados. Os pontos representam valores médios obtidos a partir das taxas registradas para diferentes unidades de conservação. As barras de variação e o número de registros para cada ano não são apresentados para maior clareza da figura.


Outros Primatas

Os primatas criticamente ameaçados Cebus kaapori e Chiropotes satanas foram registrados em uma única unidade de conservação, a REBIO do Gurupi. Houve apenas nove avistamentos de Cebus kaapori e 24 de Chiropotes satanas no período de 2014-2022. O esforço total realizado no período em relação a essas espécies foi de apenas 175 km, tendo em vista que somente recentemente as três unidades amostrais do alvo mastoaves foram implementadas na REBIO do Gurupi.


Figura 5.11: Taxas médias de avistamento estimadas por ano para cinco espécies de primatas ameaçados. Os pontos representam valores médios obtidos a partir das taxas registradas para diferentes unidades de conservação. As barras de variação e o número de registros para cada ano não são apresentados para maior clareza da figura.


As taxas de avistamento do tamanduá-bandeira - Myrmecophaga tridactyla (categoria VU de ameaça) variaram pouco ao longo dos anos (Figura 5.12). Em comparação às outras espécies, sua taxa de avistamento pode ser considerada estável. Dos 51 registros, 24 ocorreram nas RESEX Tapajós-Arapiuns e do Cazumbá-Iracema e na ESEC de Maracá, mas por ser uma espécie normalmente associada a ambientes mais abertos, o que vai de encontro a metodologia do componente florestal, poucos registros já eram esperados.


Figura 5.12: Taxas médias de avistamento estimadas por ano para a espécie ameaçada tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla). Os pontos representam valores médios obtidos a partir das taxas registradas para diferentes unidades de conservação. As barras de variação e o número de registros para cada ano não são apresentados para maior clareza da figura.

Na Figura 5.13 é possível visualizar os valores e suas flutuações para a abundância relativa de cinco espécies de aves amazônicas ameaçadas, um cujubim (Aburria cujubi) e quatro jacamins (Psophia spp.) para o conjunto de UCs do Programa Monitora.

A despeito de se observar uma variação nas abundâncias ao longo dos anos, parece haver uma tendência evidente de estabilidade demográfica das populações para o sistema de 21 unidades de conservação do Programa Monitora onde essas espécies são encontradas. Dessas UCs 13 apresentam ocorrência de A. cujubi (VU), 11 de Psophia viridis (VU), oito de Psophia dextralis (VU), duas de Psophia interjecta (EN) e uma de Psophia obscura (CR).

Figura 5.13: Taxas médias de avistamento estimadas por ano para cinco espécies de aves ameaçadas. Os pontos representam valores médios obtidos a partir das taxas registradas para diferentes unidades de conservação. As barras de variação e o número de registros para cada ano não são apresentados para maior clareza da figura.


5.2.6 Média Geométrica das populações (Living Planet Index – LPI)

A média geométrica das abundâncias relativas é uma medida de escolha para monitoramento de tendências da biodiversidade em diversos programas ([10], [11]). Esse índice reflete tendências na abundância e equitabilidade entre as populações, e não é afetado pelo ano base escolhido nem por variações inter-populacionais na detectabilidade, por ser baseado em tendências intra-populacionais ([12], [13]). Para o cálculo da média geométrica, utilizamos dados de 160 populações em 22 UCs. Somente foram incluídas populações com pelo menos cinco anos de monitoramento, taxa de encontro média > 0.5 encontros a cada 10 km, e com esforço amostral suficiente para atingir um coeficiente de variação da taxa de encontro ≥ 0.25. A média geométrica e seu intervalo de confiança foram estimados por bootstrap seguindo as recomendações de ([10], [12]).


Resultado da Média Geométrica

A média geométrica das abundâncias relativas das populações analisadas permaneceu estável ao longo do monitoramento, com o intervalo de 95% de credibilidade incluindo a linha de base durante todo o período (Figura 5.14). Esse resultado sugere que as UCs monitoradas têm sido efetivas para a conservação das espécies de mamíferos e aves alvos do Programa Monitora. Embora essa seja uma ótima notícia, ela deve ser interpretada em seu devido contexto, em especial considerando-se que: o protocolo foca principalmente em espécies relativamente comuns e ecologicamente flexíveis; a duração do monitoramento foi relativamente curta em relação à longevidade das espécies-alvo; e a maioria das estações amostrais foi estabelecida em áreas de referência (áreas íntegras no interior das UCs), representando cenários ideais e não necessariamente os gradientes de pressão que atuam sobre a biodiversidade na escala regional e/ou fora das UCs. Assim, a continuidade do monitoramento e o estabelecimento de estações amostrais em áreas impactadas pode elucidar melhor as tendências da biodiversidade.


Figura 5.14: Média geométrica das estimativas de abundância relativa para 160 populações monitoradas. A linha azul corresponde aos valores médios; as faixas azuladas sombreadas, ao intervalo de confiança de 90 e 95%.


Os mutuns como indicadores


Mutuns (gêneros Crax e Pauxi) são as maiores aves florestais terrestres do bioma amazônico. Espécies de ambos os gêneros podem ser encontradas na região, muitas vezes em simpatria. Seu relativo grande tamanho e sua ampla distribuição conferem a este grupo um alto valor cinegético. Sendo assim, parece plausível supor que a frequência relativa deste grupo no total de registros de aves do Programa Monitora possa ser um indicador da intensidade de uso histórico e/ou atual da fauna nas unidades de conservação aqui tratadas.

Considerando que para a maioria das unidades de conservação amostradas o período de monitoramento ainda é pequeno, apresentamos aqui um exercício no sentido de avaliar este indicador (abundância de mutuns) apenas como descritor na dimensão “estado”, não sendo os resultados apresentados na perspectiva de “tendência” populacional.

Nas 42 unidades de conservação amazônicas participantes do Programa Monitora, a frequência relativa dos mutuns variou de 0 a 25,4% do total de registros de aves, com um valor médio de 10% (Tabela 5.1). Duas unidades de conservação vizinhas no estado do Acre, RESEX Alto Tarauacá e Riozinho da Liberdade, não possuem registros. Em Rondônia, o PARNA de Pacaás Novos é a unidade com maior frequência relativa de mutuns (25,4%), resultante de registros de uma única espécie: Pauxi tuberosa. Curiosamente, esta unidade está inserida em um bloco florestal remanescente, composto também por outras unidades de conservação que apresentaram valores muito inferiores: RESEX Rio Ouro Preto (8,7%), RESEX do Rio Cautário e PARNA da Serra da Cutia (1,2%) e RESEX Barreiro das Antas (0,7%).


Tabela 5.1: Frequência relativa de mutuns (Crax spp. e Pauxi spp.) no total de registros de aves das unidades de conservação do Programa Monitora na Amazônia.
Unidade de Conservação Mutuns (%)
PARNA de Pacaás Novos  25,4 
ESEC da Terra do Meio  24,7 
ESEC de Maracá  23,8 
ESEC do Rio Acre  20,5 
PARNA Serra da Mocidade  20,2 
ESEC do Jari  17,9 
REBIO do Uatumã  17,6 
PARNA dos Campos Amazônicos  17,6 
PARNA do Juruena  16,8 
PARNA Mapinguari  16,3 
PARNA do Viruá  15,9 
REBIO do Jaru  15,1 
PARNA da Serra do Pardo  15,0 
FLONA do Jamari  14,6 
REBIO do Tapirapé  13,8 
REBIO Trombetas  12,2 
ESEC de Niquiá  11,6 
RESEX Riozinho do Anfrísio  10,9 
PARNA da Amazônia  10,3 
RESEX Verde Para Sempre  9,5 
PARNA Nascentes do Lago Jari  9,1 
RESEX Rio Ouro Preto  8,7 
RESEX Renascer  7,0 
PARNA Montanhas do Tumucumaque  6,6 
PARNA do Cabo Orange  6,4 
RESEX Tapajós-Arapiuns  6,3 
RESEX Ipaú-Anilzinho  5,6 
PARNA do Monte Roraima  5,2 
RESEX do Rio Cautário  5,0 
PARNA da Serra do Divisor  4,5 
RESEX do Lago do Capanã Grande  3,7 
FLONA do Tapajós  3,2 
REBIO Gurupi  2,4 
PARNA do Jaú  2,3 
RESEX Arapixi  2,2 
PARNA da Serra da Cutia  1,2 
RESEX Chico Mendes  0,8 
RESEX Barreiro das Antas  0,7 
RESEX do Cazumbá-Iracema  0,3 
RESEX Alto Tarauacá  0,0 
RESEX Riozinho da Liberdade  0,0 

5.3 Destaques

Avaliar se a abordagem de DDs não seria um DESTAQUE interessante.

Kaapori vs Gurupi

5.4 Discussão


Apesar do método de amostragem de mamíferos terrestres de médio e grande porte e aves terrícolas cinegéticas (protocolo básico) ser aplicado no período diurno, todas as espécies ameaçadas e esperadas da ordem Carnivora foram registradas ao menos uma vez, num total de 114 registros. Contudo, três espécies, Atelocynus microtis, Herpailurus yagouaroundi e Speothos venaticus foram registradas menos de dez vezes e Chrysocyon brachiurus, somente uma — cabendo destacar a atual baixa representatividade das UCs do Cerrado no Programa. Não obstante, duas espécies evidentemente diurnas e não ameaçadas, Eira barbara e Nasua nasua, conjuntamente representaram dois terços (67%) do total de registros de Carnivora. Isso demonstra a dificuldade de amostragem de espécies noturnas e raras, em grande parte superada pela implementação do protocolo avançado, que usa armadilhas fotográficas. Dessa forma, o protocolo básico fornece informações preliminares dessa ordem, que podem ser complementadas posteriormente conforme as necessidades, a capacidade e as estratégias de gestão de cada unidade de conservação.

Assim como para a ordem Carnivora, muitas espécies noturnas e abundantes de outras ordens também foram pouco registradas, especialmente para Lagomorpha (tapitis) e Cingulata (tatus), enquanto espécies da ordem Cetartiodactyla (cervos e porcos-do-mato) estiveram bem representadas.

Nota

Ressalta-se que a presença de cães domésticos foi registrada apenas quatro vezes e não houve registro de gatos domésticos. Esse resultado pode ser apenas um reflexo da recomendação do protocolo básico de não instalação das estações amostrais em locais sob influência mais direta de atividades humanas, como nas proximidades de áreas urbanas ou núcleos populacionais.


Riqueza

Em relação à riqueza, alguns estudos na Amazônia também utilizaram transectos lineares para a amostragem de mamíferos alvos do componente Florestal do Programa Monitora ([14], [15], [16]). Contudo, o protocolo utilizado pelo ICMBio apresenta algumas particularidades e comparações devem ser realizadas com cautela. De forma geral, as espécies amostradas pelo Programa Monitora foram as mesmas registradas nesses estudos, exceto por algumas ausências como Bassaricyon beddardi ([15], [17]); Lycalopex vetulus na ESEC Serra Geral do Tocantins ([18]), Mustela africana ([19]: distribuição geográfica incerta na Amazônia); Galictis cuja no PARNA Serra do Cipó ([20]); Conepatus chinga no PARNA Iguaçu ([21]); Potos flavus ([22]). Já os marsupiais, ordem Didelphimorphia, por serem majoritariamente de hábitos noturnos, de pequeno porte e pouco conhecidos, foram registradas apenas algumas espécies de maior porte pertencentes ao gênero Didelphis. Essa observação anterior também se aplica aos roedores, ordem Rodentia, em que famílias inteiras com representantes muito pequenos não foram registradas, tais como Cricetidae, Dinomydae e Echimyidae, os quais exigem a captura para a sua identificação específica. Em relação aos tatus, ordem Cingulata, não foram registrados Dasypus septemcinctus, Dasypus beniensis, Euphractus sexcinctus e Cabassous tatouay, que têm distribuição provável em várias regiões ([23], [24], [25]).

Uma importante contribuição do Programa Monitora é o registro de ocorrência e a obtenção de dados de abundância das espécies de primatas ameaçados de extinção. Com relação aos táxons criticamente ameaçados Cebus kaapori e Chiropotes satanas o esforço de monitoramento deve ser intensificado a fim de gerar dados robustos sobre a abundância dessas espécies na REBIO do Gurupi. Essa unidade de conservação é extremamente importante para conservação dessas espécies de primatas ([26], [27]), uma vez que Cebus kaapori é uma das 25 espécies de primatas mais ameaçados do mundo ([28]).

Muitas das espécies ausentes têm hábitos noturnos e apresentam baixa detectabilidade pelo método utilizado, voltado a animais diurnos. Apesar de transectos lineares noturnos poderem aumentar a detecção de espécies não diurnas, pode haver pouco benefício nessa abordagem em razão de problemas como a falta de visibilidade, dificuldade de movimentar-se em silêncio pela trilha e dificuldade de discernir auditivamente os animais em movimentação ([29]). Assim, o protocolo avançado com armadilhas fotográficas ainda é a melhor opção para a amostragem de algumas espécies raras e/ou de hábitos noturnos ([29]), mas outros métodos com enfoque em registros indiretos podem elevar consideravelmente a detecção de espécies ([30], [31]).


Taxas de avistamento

Estudos na Amazônia usando transectos lineares registraram taxas de avistamento variando de dois a 20 mamíferos/10 km: de 4,1 a 5,08 na ESEC Maracá ([32], [33], [34]) e 7,62 no PARNA Viruá ([17]), ambos em Roraima; 5,5 na região do rio Urucu, no Amazonas ([35]); 3,42 na RDS Uacari, Amazonas ([29]: exceto primatas); de 6,37 a 8,3 na região do baixo rio Purus ([36]); 6,77 na REBIO Gurupi, no Pará ([26]); de 7,65 a 15,82 na ESEC Terra do Meio, no Pará (apenas registros diretos: [31], [37]); 120,05 na Amazônia Equatoriana ([38]); 5,92 na Amazônia Peruana ([39]). Tais valores são muito semelhantes aos encontrados nas unidades amostradas no Programa Monitora.

Em outras regiões tropicais, como por exemplo a Costa Rica, foram registradas taxas de 7 a 35 avistamentos/10 km ([40]).

Já para a Mata Atlântica, em 62 estudos realizados em diversas fitofisionomias usando transectos lineares ([41]) a taxa de avistamentos/10 km variou de 0,01 a 7,29, com uma mediana de 0,47 indivíduos. Esses valores são condizentes com os resultados do Programa Monitora e retratam a reduzida taxa de encontro com mamíferos, em comparação ao bioma Amazônia; 3,81 no Paraguai ([42]: apenas registros diretos).

No Cerrado, as taxas de avistamento de mamíferos também foram no geral menores, embora a ESEC de Pirapitinga tenha apresentado uma taxa bem superior às demais do bioma. Isso se refletiu em alguns estudos no Cerrado que apresentaram taxas também bem distintas: 0,5 na Bahia ([43]); 9,71 no PARNA da Serra do Cipó ([20]); e 16,92 em Minas Gerais ([44]).

Embora marcados pela ausência de registros importantes (Taoniscus nanus no Cerrado, jacutinga na Mata Atlântica e Crax f pinima na Amazônia), a despeito do esforço amostral considerável, os resultados parecem apontar para uma estabilidade demográfica no período considerado (2014-2022), inclusive para os táxons ameaçados.

Sobre a taxa de avistamento total de aves na Amazônia, os resultados para as unidades de conservação do Programa apresentaram em sua maioria valores superiores ao observado para as florestas do Lago Uauaçú, no baixo Purús, uma região de “água preta”, caracterizada pela baixa produtividade, mas com baixa pressão de caça, ainda que não seja uma área protegida ([45]). Nesta região, a partir de um esforço de 4.612,45 km, superior ao de qualquer unidade de conservação participante do Programa Monitora, distribuídos nos ambientes de floresta de terra firme, várzea e igapó, foi obtida uma taxa de 2,7 aves/10km percorridos para o conjunto comum de táxons de aves. Na ESEC da Terra do Meio, unidade com a maior abundância de aves, este valor chega a ser superior a 10 encontros para o conjunto de aves das espécies alvo por 10 km percorridos, o que pode ser entendido como um indicativo de que o grupo de aves alvo apresenta nas unidades de conservação, de forma genérica, uma maior abundância. Já a frequência relativa de mutuns (Crax e Pauxi) foi muito semelhante entre este estudo (25%) e aos maiores valores observados nas unidades de conservação participantes do Programa (25,4%) ([45]).

É importante destacar que muitas espécies da fauna brasileira não possuem densidades populacionais e/ou taxas de avistamento descritas na literatura e, portanto, os dados obtidos pelo Monitora possibilitarão a construção desta linha de base de dados que servirá de subsídio, inclusive, para avaliação do estado de conservação das espécies.

Poucas iniciativas de monitoramento abrangem mais de um bioma. O Programa Monitora, em seu componente Florestal, se propôs a coletar dados no Cerrado, na Mata Atlântica e na Amazônia. Um grande desafio para as unidades de conservação e para o Programa é a continuidade na execução dos protocolos, com coletas anuais contínuas e esforço amostral estável, como recomendado, ao longo dos anos. E, embora os dados para o Cerrado e Mata Atlântica ainda sejam limitados, pelos motivos já mencionados neste relatório, para a Amazônia já é possível traçar um cenário bastante confiável sobre a presença e o estado de conservação de algumas espécies alvo deste protocolo.


5.5 Recomendações


Boas práticas para aprimorar o Programa


  • Consolidar a implantação do protocolo básico de mamíferos terrestres de médio e grande porte e aves terrícolas cinegéticas naquelas unidades de conservação ainda não consolidadas, de forma que as UCs contem com pelo menos três estações amostrais implantadas e em operação;

  • Assegurar que durante as campanhas de campo as amostragens sejam realizadas de acordo com as diretrizes estabelecidas no protocolo amostral e no projeto de amostragem, em especial quanto ao respeito ao esforço amostral;

  • Assegurar que os dados coletados sejam repassados à COMOB de acordo com as orientações definidas pela Coordenação e num prazo razoável após a realização da campanha de campo;

  • Para novas unidades de conservação a participarem do Programa, promover a implementação de todas as unidades amostrais em um mesmo ano;

  • Garantir que o método seja aplicado sem erros de procedimento, como por exemplo, assegurar que apenas duas pessoas realizem a amostragem em campo, respeitando os horários estipulados para início e fim das amostragens e medindo corretamente as distâncias dos registros realizados.

Sobre a última recomendação acima, cabe salientar que uma análise possível e esperada para os dados obtidos pelo método empregado é a geração de quantitativos populacionais a partir da estimativa da densidade de grupos ou indivíduos. Esta estimativa seria fruto da taxa de encontro e das distâncias perpendiculares entre o grupo ou indivíduo e a transecção, mensuradas em cada avistamento. Contudo, em análises prévias não apresentadas nesse documento foram observados alguns vícios de amostragem que podem comprometer ou tornar as estimativas de densidade menos precisas. Destacamos o efeito spyke (número desproporcional de registros sobre a transecção) e o efeito de arredondamento das mensurações (tendência de as medidas serem atribuídas à valores arredondados como 10, 15 ou 20 m) nos dados obtidos de modo generalizado.